terça-feira, 15 de novembro de 2011

Louco como um Chapeleiro

Os sintomas do envenenamento com mercúrio podem ser variados:

- Arrepios                - Gosto metálico        - Náuseas               
- Vómitos                - Dor abdominal         - Diarreia                   
- Problemas respiratórios e renais               - Descoordenação 
- Confusão              - Tremores                - Dores de cabeça         
- Insónia                 - Entorpecimento dos lábios, língua, mãos e pés     
- Perda de memória   - Alterações psiquiátricas (exposição prolongada)

Estas últimas estão bem ilustradas nas características do “chapeleiro louco” do livro “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carol. 


De facto o envenenamento com mercúrio, e as respectivas alterações psiquiátricas, eram comuns nos chapeleiros. Uma intoxicação ocupacional pelo mercúrio utilizado no processo de fabrico de chapéus. Os ingleses têm mesmo a expressão “Mad as a hatter” (louco como um chapeleiro). 

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Com o mercúrio não se brinca...

Há algum tempo um dos nossos leitores pôs-nos uma questão muito pertinente, a que hoje vimos dar resposta.

Aproveito o vosso desafio para vos pôr uma questão. Em criança, quando um termómetro se partia deixavam-me brincar com o mercúrio. Ouvi há tempos que é tóxico.

Seria possível darem mais informação sobre isto?



Uma pergunta mesmo muito importante! 

Durante muitos anos eram usados termómetros de mercúrio para medir a temperatura do corpo humano. Mas o mercúrio é extremamente tóxico e, por razões ambientais e de saúde pública, desde o início deste milénio é proibido o uso destes termómetros no Serviço Nacional de Saúde, assim como a sua comercialização. No entanto, possivelmente eles ainda existem nalgumas casas.

Devido à falta de conhecimento relativa à toxicidade do mercúrio, muita gente há algumas décadas brincou com o mercúrio quando se partia um termómetro. Ele tem um comportamento fascinante, especialmente para as crianças. 



Esta é contudo uma brincadeira perigosa, o mercúrio é muito tóxico e, o que torna a situação ainda mais grave, o mercúrio e os seus sais acumulam-se no organismo pois este não consegue eliminar facilmente estas substâncias. Assim, ao longo do tempo a situação vai piorando levando a um envenenamento crónico.

O mercúrio é bastante volátil e facilmente absorvido pela pele. Assim tocar nele, como acontecia quando se brincava, era grave. Por outro lado, se não for devidamente eliminado e ficar, por exemplo, em frinchas no chão, vai vaporizando e sendo inalado por quem vive no local. Aspirá-lo também não é solução, visto que desta forma os seus vapores irão dispersar-se.

No que respeita ao ambiente. O aspecto mais importante é a contaminação de águas, principalmente contaminadas por mercúrio existente em efluentes industriais. Neste caso ele poderá entrar na cadeia alimentar, por exemplo através da ingestão de peixe que viva nessas águas e que o acumulam no seu organismo.

Pode ver aqui como eliminar mercúrio com segurança.

domingo, 13 de novembro de 2011

A Química na Arte XXIX


Songs of Which [Evelina kneeling, looking left]
2004
Dove Bradshaw

 " Elemental Matters: Artists Imagine Chemistry"
 Chemical Heritage Foundation - Philadelphia

http://www.iupac.org/publications/ci/2011/3303/1_brouwer.html

sábado, 12 de novembro de 2011

Quentes e boas, quem quer castanhas?

O Outono traz consigo as belas cores vibrantes e quentes das folhas e, no nosso País, um cheirinho no ar a castanhas assadas na rua em carinhos ambulantes. Este dá-nos uma sensação de conforto, suavizando uma certa tristeza pelo fim próximo dos bons dias de Sol. É difícil resistir-lhe... mas sabia que as castanhas, que actualmente são um petisco, tiveram, noutros tempos, uma enorme importância na dieta dos portugueses?
No século XVII eram mesmo um dos produtos básicos da alimentação dos beirões e transmontanos chegando, quando necessário, a substituir o pão ou as batatas.
A castanha é usada na alimentação desde tempos pré-históricos e a respectiva árvore - Castanea sativa - foi introduzida na Europa há cerca de 3000 anos.
A castanha que comemos é, de facto, uma semente que surge no interior de um ouriço (o fruto do castanheiro). Mas embora seja uma semente como as nozes, tem muito menos gordura e muito mais amido (um hidrato de carbono). Tal dá-lhe outras possibilidades de ser usada na alimentação. As castanhas têm mesmo cerca do dobro da percentagem de amido das batatas. São também ricas em vitaminas C e B6 e uma boa fonte potássio.

Composição média (%)
Castanhas
Batatas
Nozes
Água
52
80
4
Proteínas
3
2
15
Lípidos
2
0,1
64
Hidratos de Carbono
42
17
16

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Hoje é dia de S. Martinho

O dia de São Martinho está aí. Não queremos deixar de assinalar este dia falando um pouco sobre São Martinho e de alguma química relacionada com castanhas.

Dado que às castanhas associamos o S. Martinho, sabe quem este era? Diz a lenda que Martinho, nascido na Hungria em 316, era um soldado. O seu nome foi-lhe dado em homenagem a Marte, o Deus da Guerra e protector dos soldados
Certo dia de Novembro, muito frio, estando em França ao serviço do Imperador, ia Martinho no seu cavalo a caminho da cidade de Amiens quando, de repente, começou uma terrível tempestade. A certa altura surgiu à beira da estrada um pobre homem a pedir esmola. Como nada tivesse, Martinho, sem hesitar, pegou na espada e cortou a sua capa de soldado ao meio, dando uma das metades ao pobre para que este se protegesse do frio. Nessa altura a chuva parou e o Sol começou a brilhar ficando, inexplicavelmente, um tempo quase de Verão.

Daí que esperemos, todos os anos, o Verão de S. Martinho. E a verdade é que S. Martinho raramente nos decepciona e, em sua homenagem, comemoramos o dia 11 Novembro com as primeiras castanhas do ano, acompanhadas de vinho novo. É o Magusto que faz parte das tradições do nosso País.


As castanhas são comidas assadas ou cozidas com erva-doce. Mas antes de cozinhadas deve-se retalhar a sua casca. Já alguma vez pensou porquê? Talvez saiba que é para não rebentarem. Mas sabe porque é que as castanhas rebentam ao serem cozinhadas? As castanhas contêm bastante água na sua composição. Cerca de metade do peso de uma castanha corresponde a água. Quando são aquecidas, essa água passa a vapor. A pressão do vapor vai aumentando e “empurrando” a casca, e se esta não tiver levado um golpe para deixar escapar esse vapor, a castanha pode explodir e a castanha fica toda fragmentada



Castanhas Assadas

Ingredientes:
Castanhas, Sal grosso, Água 

Preparação:
Prepare as castanhas dando-lhes um golpe com uma faca.
Salpique-as com água, para o sal aderir mais facilmente e para que a casca fique mais estaladiça e assim se retire com mais facilidade.
Polvilhe as castanhas com sal e coloque-as num tabuleiro de ir ao forno ou num assador de barro furado. Coloque o tabuleiro no forno ou o assador de barro na lareira sobre as brasas, tendo o cuidado, quer num caso quer noutro, de as mexer de vez em quando. Quando estiverem assadas coloque-as num recipiente de barro e sirva, a fim de que cada pessoa descasque a sua parte. 

Castanhas cozidas:

Ingredientes:
Castanhas, Água, Sal grosso, Erva doce

Preparação:
Prepare as castanhas dando-lhes um golpe com uma faca, a fim de não rebentarem. Coloque-as num tacho com água e leve ao lume. Quando a água estiver a ferver tempere com sal e erva doce. Depois de cozidas podem ser comidas simples, com manteiga ou servir de acompanhamento a pratos de carne.



Adaptado de um post colocado originalmente em:  http://acozinhaeumlaboratorio.blogspot.com/

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

As bonecas e o "peso" da idade!

As bonecas antigas constituem um registo da moda, história e materiais disponíveis na época do seu fabrico. Museus em todos os países do mundo têm nas suas colecções estes objectos e querem preservá-los para que as futuras gerações possam usufruir deles e estudá-los.
Algumas das bonecas de plástico, como é o caso das Barbies, fabricadas nas décadas de 50 e 60 do século XX, sofrem contudo um processo de degradação importante com que é necessário lidar .A sua pele apresenta manchas verdes e “lacrimeja”. É impossível evitar este processo, mas há meios tecnológicos para o retardar e prolongar a vida da Barbie por mais alguns anos - por exemplo conservá-las a baixas temperaturas e na ausência de luz.
As bonecas Barbie referidas são fabricadas em policloreto de vinilo (PVC) que é um material barato, disponível comercialmente desde 1942.  O PVC é um plástico muito quebradiço e  é importante adicionar-lhe um agente plasticizante, em geral dibutil-ftalato, para o tornar mais flexível. O mecanismo de actuação dos agentes plastificantes envolve a separação das cadeias de polímero de forma a que se liguem menos fortemente entre si e deslizem umas sobre as outras.
O dibutil-ftalato com o tempo migra para a superfície causando o efeito “lacrimejante” e tornando o plástico pegajoso. Isto é um problema visto que o dibutil-ftalato é tóxico seja por ingestão ou através do contacto com a pele.
Mas este processo tem ainda consequências mais graves, o PVC fica altamente vulnerável ​​à deterioração. Quando esta ocorre, forma-se ácido clorídrico, corrosivo,  que se não fôr removido acelera muito o processo de degradação do PVC (cataliza-o). A deterioração do PVC reflecte-se numa mudança da sua cor do branco ao amarelo, ao rosa, ao castanho e, eventualmente, preto.
O ácido corrói ainda quaisquer metais com que contacte, as bonecas muitas vezes têm brincos, e o metal destes reage com o ácido clorídrico e forma-se cloreto de cobre, verde, que mancha sua pele. 


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O Pó Branco dos Chouriços

Uma das nossas leitoras deixou-nos aqui a seguinte uma questão há tempos.

 Como boa "emigrante" (estou neste momento a residir em Londres), cada vez que vou a Portugal compro enchidos e trago-os comigo para aqui para ir matando saudades de casa. Mas acontece-me por vezes que, depois de abertos, os enchidos ficam cobertos por um pó branco muito fininho. O que é este pó?

Uma pergunta difícil... achámos que não era um assunto apenas de química, que se tratavam de microorganismos. Microorganismos formados por moléculas e cujo metabolismo envolve inúmeras reacções químicas... Mas para responder, precisávamos de ajuda de quem mais soubesse. Aqui está ela!


Eu trabalho num laboratório de Microbiologia, com leveduras, e há muito tempo ouvi dizer que esse pó branco era constituído por umas leveduras muito tolerantes ao sal chamadas Debaryomyces hansenii. Não me custava a crer que fosse vivo, porque é óbvio para toda a gente que o pó aparece e cresce.
Desta vez, comprei de propósito um chouriço já com mau aspecto e fui ver o pó ao microscópio. Fotografei e vejam a imagem que partilho convosco. 


Não há dúvida, são leveduras. E reparem, todas iguais e não se vêem outros microorganismos. Uma cultura pura, ou quase! Eu não tenho a certeza de que sejam D. hansenii, porque não fiz testes de identificação, mas pelo aspecto acho que são mesmo.
Nós sabemos que é uma levedura muito especial porque tolera elevadas concentrações de sal, como a que existe nos chouriços.
E há enchidos, que se querem mesmo cobertos pelo tal pó branco e são inoculados com a tal levedura. É o caso do salame. Neste caso, as leveduras co-habitam com as bactérias que levam a cabo a fermentação dos enchidos e favorecem esse processo.

Conceição Loureiro Dias
Instituto Superior de Agronomia


Agradecemos a ambas!