Há algum tempo um dos nossos leitores pôs-nos uma questão muito pertinente, a que hoje vimos dar resposta.
Aproveito o vosso desafio para vos pôr uma questão. Em criança, quando um termómetro se partia deixavam-me brincar com o mercúrio. Ouvi há tempos que é tóxico.
Seria possível darem mais informação sobre isto?
Uma pergunta mesmo muito importante!
Durante muitos anos eram usados termómetros de mercúrio para medir a temperatura do corpo humano. Mas o mercúrio é extremamente tóxico e, por razões ambientais e de saúde pública, desde o início deste milénio é proibido o uso destes termómetros no Serviço Nacional de Saúde, assim como a sua comercialização. No entanto, possivelmente eles ainda existem nalgumas casas.
Devido à falta de conhecimento relativa à toxicidade do mercúrio, muita gente há algumas décadas brincou com o mercúrio quando se partia um termómetro. Ele tem um comportamento fascinante, especialmente para as crianças.
Esta é contudo uma brincadeira perigosa, o mercúrio é muito tóxico e, o que torna a situação ainda mais grave, o mercúrio e os seus sais acumulam-se no organismo pois este não consegue eliminar facilmente estas substâncias. Assim, ao longo do tempo a situação vai piorando levando a um envenenamento crónico.
O mercúrio é bastante volátil e facilmente absorvido pela pele. Assim tocar nele, como acontecia quando se brincava, era grave. Por outro lado, se não for devidamente eliminado e ficar, por exemplo, em frinchas no chão, vai vaporizando e sendo inalado por quem vive no local. Aspirá-lo também não é solução, visto que desta forma os seus vapores irão dispersar-se.
No que respeita ao ambiente. O aspecto mais importante é a contaminação de águas, principalmente contaminadas por mercúrio existente em efluentes industriais. Neste caso ele poderá entrar na cadeia alimentar, por exemplo através da ingestão de peixe que viva nessas águas e que o acumulam no seu organismo.
Pode ver aqui como eliminar mercúrio com segurança.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
domingo, 13 de novembro de 2011
A Química na Arte XXIX
Songs of Which [Evelina kneeling, looking left]
2004
Dove Bradshaw
" Elemental Matters: Artists Imagine Chemistry"
Chemical Heritage Foundation - Philadelphia
http://www.iupac.org/publications/ci/2011/3303/1_brouwer.html
sábado, 12 de novembro de 2011
Quentes e boas, quem quer castanhas?
O Outono traz consigo as belas cores vibrantes e quentes das folhas e, no nosso País, um cheirinho no ar a castanhas assadas na rua em carinhos ambulantes. Este dá-nos uma sensação de conforto, suavizando uma certa tristeza pelo fim próximo dos bons dias de Sol. É difícil resistir-lhe... mas sabia que as castanhas, que actualmente são um petisco, tiveram, noutros tempos, uma enorme importância na dieta dos portugueses? No século XVII eram mesmo um dos produtos básicos da alimentação dos beirões e transmontanos chegando, quando necessário, a substituir o pão ou as batatas.
A castanha é usada na alimentação desde tempos pré-históricos e a respectiva árvore - Castanea sativa - foi introduzida na Europa há cerca de 3000 anos.
A castanha que comemos é, de facto, uma semente que surge no interior de um ouriço (o fruto do castanheiro). Mas embora seja uma semente como as nozes, tem muito menos gordura e muito mais amido (um hidrato de carbono). Tal dá-lhe outras possibilidades de ser usada na alimentação. As castanhas têm mesmo cerca do dobro da percentagem de amido das batatas. São também ricas em vitaminas C e B6 e uma boa fonte potássio.
Composição média (%) | Castanhas | Batatas | Nozes |
Água | 52 | 80 | 4 |
Proteínas | 3 | 2 | 15 |
Lípidos | 2 | 0,1 | 64 |
Hidratos de Carbono | 42 | 17 | 16 |
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Hoje é dia de S. Martinho
O dia de São Martinho está aí. Não queremos deixar de assinalar este dia falando um pouco sobre São Martinho e de alguma química relacionada com castanhas.
Dado que às castanhas associamos o S. Martinho, sabe quem este era? Diz a lenda que Martinho, nascido na Hungria em 316, era um soldado. O seu nome foi-lhe dado em homenagem a Marte, o Deus da Guerra e protector dos soldados
Certo dia de Novembro, muito frio, estando em França ao serviço do Imperador, ia Martinho no seu cavalo a caminho da cidade de Amiens quando, de repente, começou uma terrível tempestade. A certa altura surgiu à beira da estrada um pobre homem a pedir esmola. Como nada tivesse, Martinho, sem hesitar, pegou na espada e cortou a sua capa de soldado ao meio, dando uma das metades ao pobre para que este se protegesse do frio. Nessa altura a chuva parou e o Sol começou a brilhar ficando, inexplicavelmente, um tempo quase de Verão.
Daí que esperemos, todos os anos, o Verão de S. Martinho. E a verdade é que S. Martinho raramente nos decepciona e, em sua homenagem, comemoramos o dia 11 Novembro com as primeiras castanhas do ano, acompanhadas de vinho novo. É o Magusto que faz parte das tradições do nosso País.
As castanhas são comidas assadas ou cozidas com erva-doce. Mas antes de cozinhadas deve-se retalhar a sua casca. Já alguma vez pensou porquê? Talvez saiba que é para não rebentarem. Mas sabe porque é que as castanhas rebentam ao serem cozinhadas? As castanhas contêm bastante água na sua composição. Cerca de metade do peso de uma castanha corresponde a água. Quando são aquecidas, essa água passa a vapor. A pressão do vapor vai aumentando e “empurrando” a casca, e se esta não tiver levado um golpe para deixar escapar esse vapor, a castanha pode explodir e a castanha fica toda fragmentada

Castanhas Assadas
Ingredientes:
Castanhas, Sal grosso, Água
Preparação:
Prepare as castanhas dando-lhes um golpe com uma faca.
Salpique-as com água, para o sal aderir mais facilmente e para que a casca fique mais estaladiça e assim se retire com mais facilidade.
Polvilhe as castanhas com sal e coloque-as num tabuleiro de ir ao forno ou num assador de barro furado. Coloque o tabuleiro no forno ou o assador de barro na lareira sobre as brasas, tendo o cuidado, quer num caso quer noutro, de as mexer de vez em quando. Quando estiverem assadas coloque-as num recipiente de barro e sirva, a fim de que cada pessoa descasque a sua parte.
Castanhas cozidas:
Ingredientes:
Castanhas, Água, Sal grosso, Erva doce
Preparação:
Prepare as castanhas dando-lhes um golpe com uma faca, a fim de não rebentarem. Coloque-as num tacho com água e leve ao lume. Quando a água estiver a ferver tempere com sal e erva doce. Depois de cozidas podem ser comidas simples, com manteiga ou servir de acompanhamento a pratos de carne.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
As bonecas e o "peso" da idade!
As bonecas antigas constituem um registo da moda, história e materiais disponíveis na época do seu fabrico. Museus em todos os países do mundo têm nas suas colecções estes objectos e querem preservá-los para que as futuras gerações possam usufruir deles e estudá-los.
Algumas das bonecas de plástico, como é o caso das Barbies, fabricadas nas décadas de 50 e 60 do século XX, sofrem contudo um processo de degradação importante com que é necessário lidar .A sua pele apresenta manchas verdes e “lacrimeja”. É impossível evitar este processo, mas há meios tecnológicos para o retardar e prolongar a vida da Barbie por mais alguns anos - por exemplo conservá-las a baixas temperaturas e na ausência de luz.
As bonecas Barbie referidas são fabricadas em policloreto de vinilo (PVC) que é um material barato, disponível comercialmente desde 1942. O PVC é um plástico muito quebradiço e é importante adicionar-lhe um agente plasticizante, em geral dibutil-ftalato, para o tornar mais flexível. O mecanismo de actuação dos agentes plastificantes envolve a separação das cadeias de polímero de forma a que se liguem menos fortemente entre si e deslizem umas sobre as outras.
O dibutil-ftalato com o tempo migra para a superfície causando o efeito “lacrimejante” e tornando o plástico pegajoso. Isto é um problema visto que o dibutil-ftalato é tóxico seja por ingestão ou através do contacto com a pele.
Mas este processo tem ainda consequências mais graves, o PVC fica altamente vulnerável à deterioração. Quando esta ocorre, forma-se ácido clorídrico, corrosivo, que se não fôr removido acelera muito o processo de degradação do PVC (cataliza-o). A deterioração do PVC reflecte-se numa mudança da sua cor do branco ao amarelo, ao rosa, ao castanho e, eventualmente, preto.
O ácido corrói ainda quaisquer metais com que contacte, as bonecas muitas vezes têm brincos, e o metal destes reage com o ácido clorídrico e forma-se cloreto de cobre, verde, que mancha sua pele.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
O Pó Branco dos Chouriços
Uma das nossas leitoras deixou-nos aqui a seguinte uma questão há tempos.
Como boa "emigrante" (estou neste momento a residir em Londres), cada vez que vou a Portugal compro enchidos e trago-os comigo para aqui para ir matando saudades de casa. Mas acontece-me por vezes que, depois de abertos, os enchidos ficam cobertos por um pó branco muito fininho. O que é este pó?
Uma pergunta difícil... achámos que não era um assunto apenas de química, que se tratavam de microorganismos. Microorganismos formados por moléculas e cujo metabolismo envolve inúmeras reacções químicas... Mas para responder, precisávamos de ajuda de quem mais soubesse. Aqui está ela!
Agradecemos a ambas!
Como boa "emigrante" (estou neste momento a residir em Londres), cada vez que vou a Portugal compro enchidos e trago-os comigo para aqui para ir matando saudades de casa. Mas acontece-me por vezes que, depois de abertos, os enchidos ficam cobertos por um pó branco muito fininho. O que é este pó?
Uma pergunta difícil... achámos que não era um assunto apenas de química, que se tratavam de microorganismos. Microorganismos formados por moléculas e cujo metabolismo envolve inúmeras reacções químicas... Mas para responder, precisávamos de ajuda de quem mais soubesse. Aqui está ela!
Eu trabalho num laboratório de Microbiologia, com leveduras, e há muito tempo ouvi dizer que esse pó branco era constituído por umas leveduras muito tolerantes ao sal chamadas Debaryomyces hansenii. Não me custava a crer que fosse vivo, porque é óbvio para toda a gente que o pó aparece e cresce.
Desta vez, comprei de propósito um chouriço já com mau aspecto e fui ver o pó ao microscópio. Fotografei e vejam a imagem que partilho convosco.
Não há dúvida, são leveduras. E reparem, todas iguais e não se vêem outros microorganismos. Uma cultura pura, ou quase! Eu não tenho a certeza de que sejam D. hansenii, porque não fiz testes de identificação, mas pelo aspecto acho que são mesmo.
Nós sabemos que é uma levedura muito especial porque tolera elevadas concentrações de sal, como a que existe nos chouriços.
E há enchidos, que se querem mesmo cobertos pelo tal pó branco e são inoculados com a tal levedura. É o caso do salame. Neste caso, as leveduras co-habitam com as bactérias que levam a cabo a fermentação dos enchidos e favorecem esse processo.
Conceição Loureiro Dias
Instituto Superior de Agronomia
Agradecemos a ambas!
terça-feira, 8 de novembro de 2011
Marie Curie e a Contribuição das Mulheres para o Desenvolvimento da Ciência
A Encyclopaedia Britannica seleccionou um grupo de 300 mulheres cuja contribuição para a humanidade foi tão significativa que se pode considerar que mudaram o mundo – “300 Women Who Changed the World” , em que, justamente, está incluída Marie Curie (1867-1934). Indubitavelmente ela contribuiu para mudar o curso da ciência, mas também o papel da mulher na sociedade.
Numa época em que o mundo era dominado por homens, e em particular a academia (o trabalho envolvia actividade intelectual, tradicionalmente vedada a mulheres), ela conseguiu avançar mais na ciência do que qualquer mulher antes dela e obter o reconhecimento pelas suas realizações científicas, apesar da discriminação por parte de numerosos prestigiadas instituições académicas. Hoje, apesar das desigualdades que ainda perduram, as oportunidades para as mulheres na ciência têm aumentado, para isso muito contribuiu Marie Curie.
(Marie Curie com algumas das suas colaboradoras)
Marie Curie, abriu sempre as portas do seu laboratório a mulheres que quisessem fazer investigação científica. Tendo tido como colaboradoras um número considerável de mulheres, numa época e numa área da ciência em que isso não era comum. Entre 1904 (quando o laboratório foi criado) e 1934 (ano da morte de Marie Curie), trabalharam lá como investigadoras 47 mulheres, uma das quais portuguesa.
(clique nas imagens para as ver maiores)
Estes dados demonstram o papel das mulheres, na época, no desenvolvimento da ciência na área da radioactividade. A estas mulheres não eram simplesmente dadas as tarefas mais repetitivas e rotineiros, faziam de facto investigação. Para esta presença significativa de mulheres contribuiu certamente o facto de Marie Curie ser um modelo para muitas jovens mulheres que aspiravam a ter uma carreira científica. Mas outro aspecto que também contribuiu, contudo um factor menos positivo, foi o facto da área das ciências da radioactividade ser na época uma área emergente, que não estava particularmente institucionalizada, e portanto oferecia poucas oportunidades de carreira, sendo por isso inicialmente mais acessíveis às mulheres.
O Volume 33 (Janeiro Fevereiro de 2011) da revista “Chemistry International – The News Magazine of the International Union of Pure and Applied Chemistry (IUPAC), foi de dedicado a Marie Curie e a comemorar o 100º ano da atribuição do Prémio Nobel da Química a esta cientista. Tem um conjunto de artigos interessantíssimos (de onde recolhemos muita da informação para estes dois posts). Tudo está disponível on-line AQUI, não deixe de ler.
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